Em busca de vestígios da Capitania Perdida em Conceição da Barra

A escritora Bernadette Lyra e um “bando” de amigos que também gosta de contar histórias, estiveram em Conceição da Barra para desvendar os segredos da Capitania Perdida. Na cidade, ela foi homenageada em verso e prosa; assistiu a apresentação das Pastorinhas; apresentou a Barra para os amigos; e se emocionou. O resultado dessa saga em breve vai correr o Brasil e o mundo através das páginas de um livro e nos depoimentos que serão transformados em um Documentário.

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Em seu discurso, a escritora barrense, Bernadette Lyra se disse emocionada com a recepção e falou do seu grande amor por Conceição da Barra

Aos 80 anos e dona de uma vitalidade e lucidez admiráveis, a escritora barrense, Bernadette Lyra se aventura em mais uma de suas artes: contar e escrever histórias. E essa, em particular, terá um um toque todo especial porque pretende resgatar a origem da sua terra-mãe. É a busca de vestígios da Capitania Perdida em Conceição da Barra.

E para escrever essa história, Bernadette Lyra vai contar com a colaboração de mais nove artistas, entre escritores, cineastas, fotógrafo e artista plástico, que estiveram com ela durante visita no último dia 13 (abril), em Conceição da Barra.

Mas para saber o que colocar no script, esse “bando”, como foi carinhosamente chamado, acompanhou a escritora por várias localidades da Barra, onde conheceu um pouco da cultura e da história da Capitania Perdida. A vinda deles teve o objetivo de observar e conhecer ainda mais esse território, com atividades e ações para provocar inspirações. Ao final, os escritores pretendem produzir uma obra literária coletiva sobre as singularidades do norte do Espírito Santo, em especial Conceição da Barra.

Além de Bernadette Lyra, estiveram em Conceição da Barra os escritores João chagas, Ruy Perini, Fernando Achiamé, Adilson Vilaça, Renata Bomfim, Vitor Nogueira, Anne Mahin e Leandra Moreira, além de cineasta/roteirista e fotógrafo que acompanham a caravana.

“Somos um bando de escritores e amigos que segue em caravana rumo ao norte do nosso Estado, até Conceição da Barra, onde está a foz do rio Cricaré, o rio que atravessa aquele espaço que, nos mapas do século XVII, aparece como um lugar que não pertencia ainda à capitania do Espírito Santo, e que, por isso, estamos chamando de “A Capitania Perdida”, explica a escritora.

para chegar à conclusão da capitania perdida, ela contou que estudou diversos livros sobre a história do Espírito Santo. “Nessas leituras descobri que esse pedaço todo nosso do norte, às margens do rio Cricaré, fazia parte de uma capitania do seculo XVII, que simplesmente desapareceu, deixou de existir. Essa capitania só ia até ao rio Doce e não ultrapassa até o rio Cricaré, porque índios Aymorés eram muito ferozes e os colonizadores tinham muito receio deles. Por isso, durante longos anos nós ficamos isolados aqui no norte e assim conservamos certos costumes e o nosso modo de ser, que é diferente de outras localidades”, contou a escritora.

E foi a partir desses estudos que Bernadette Lyra teve a ideia de escrever sobre a Capitania Perdida. E para isso, levou os amigos para um passeio na foz do rio Cricaré, para entenderem onde e como tudo começou.

“Aí surgiu a ideia de fazermos essa visita na foz do Cricaré, para que todos pudessem sentir a sua energia. E vamos lançar esse livro para que o Brasil e o mundo conheçam essa nossa capitania perdida, mas maravilhosa. O Cricaré é a nossa marca registrada, é a nossa história e razão da nossa vida, assim como é a Barra, esse solo abençoado, cheio de encanto, pureza e magia, jamais vistos em outros lugares”, poetizou Bernadette Lyra.

Presença exaltada em forma de poesia por alunos, amigos e poetas da Barra

A escritora Bernadette Lyra passou um dia intenso e cheio de emoções, tão logo ela e o seu “bando” chegaram em Conceição da Barra, ainda pela manhã. Na praça da catedral, cenário de sua infância, ela se emocionou com a apresentação do Grupo de Pastorinhas, do qual sua avó, a mãe e ela fizeram parte. Nesse momento, a sensibilidade da filha ilustre permitiu-lhe as lágrimas.

E era só o começo. Em seguida, o poeta Salomão da Silva Pinto, além dos alunos da Escola João Bastos, Sara dos Santos Blandino, Lavínia Soares e Naely da Silva Cardoso renderam homenagens à escritora, com poemas tirados de seus livros e também do poeta Salomão.

Já à noite, mais surpresas e homenagens estavam reservadas à escritora e seus amigos, durante recepção que contou com a brilhante apresentação do maestro Valmar Costa Graça, na Casa de Cultura Hemógenes Lima Fonseca. O poeta Salomão declamou os poemas  “Conceição da Barra, Minha Musa Inspiradora”,   “Como Surgiram os Poetas Barrenses” e ainda “Onde Nascem os Poetas”.

Além de Salomão, a escritora foi homenageada também pelos alunos Max Luan dos Santos Figueiredo Souza e Viviany Danúbia Oleriano Barbosa, da Escola Ângelo Luiz Sagrillo Smiderde; e os alunos Sarah Emanuely, Lorenzo Cesconetto e Ana Paula Úsverti de Souza, da Escola Dr. Mário Vello Silvares.

Após a apresentação, houve o lançamento de livros de todos os escritores presentes, seguido de sorteio de suas obras ao público presente, que também participou de coquetel servido na Casa da Cultura.

Prefeito Chicão e Presidente da Academias de Letras reconhecem importância da escritora para Conceição da Barra 

O prefeito Chicão reconhece que grande parte da cultura de Conceição da Barra representa Bernadette Lyra. “A vinda dela e mais os oito escritores demonstram que estamos definitivamente sedimentando a área cultural da nossa cidade. Somos conhecidos com a capital da diversidade cultura, e do folclore”, comentou o prefeito.

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Prefeito Chicão e a primeira dama, dona Alice, em pose exclusiva com a escritora Bernadette Lyra

Segundo Chicão, a vinda dos escritores e a busca dessa capitania perdida em Conceição da Barra, na qual eles estão trabalhando, o prefeito entende que na realidade, o que eles buscam não é só no aspecto geográfico. “É o restabelecimento da nossa região e a busca do sentimento de pertencimento do nosso povo; é fazer com que cada um sinta a nossa cidade, mas como dono dela. O carioca é carioca; o baiano é baiano e o barrense precisa ser barrense, como esses escritores tanto pregam em suas poesias e contos”, analisou.

Para a presidente da Fundação da Academia de Letras e Artes de Conceição da Barra, Katia Bobbio,  a presença de Bernadette Lyra em Conceição da Barra tem um significado extraordinário, por tudo o que ela representa para a cultura da cidade. “Ela é uma das maiores intelectuais na área de literatura e cinema, e uma pessoa que canta e encanta a sua terra natal com a sua produção artística. Por isso e muito mais, ela é querida em sua terra natal. E essas manifestações é uma forma de agradecer a ela, por tudo o que ela fez nessas áreas. E isso é muito gratificante para nós, barrenses”, afirmou.

Conheça um pouco de Bernadette Lyra

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Natural de Conceição da Barra, filha de dona Maria das Dores e de Seu Álvaro Lyra, a escritora Bernadette Lyra é mestra em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Possui ainda doutorado em Cinema, pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado na Université René Descartes/Sorbonne (Paris).

É autora de livros e artigos sobre cinema e audiovisual, bem como, autora várias vezes premiada de livros de ficção, com publicações no Brasil e no exterior. Dos seus 12 livros já publicados, o mais recente romance é “A Capitoa” e o livro de crônicas “Água Salobra”.

Em 2018, lançou uma edição comemorativa de 20 anos do livro “Memórias das Ruínas de Creta”, que na época foi indicado ao Prêmio Jabuti; e o livro sobre cinema “O Jogo dos Filmes”. Bernadette ainda prepara um novo romance para 2019: “Ulpiana.

Entenda a história da capitania perdida

As capitanias do Brasil foram uma forma de administração territorial da América portuguesa, parte do Império Português, pela qual a Coroa, com recursos limitados, delegou a tarefa de colonização e exploração de determinadas áreas. E em alguns mapas do século XVII, o norte da capitania do Espírito Santo acaba na linha azul do Rio Doce.

E ao norte desse norte, corre a linha azul do Cricaré atravessando um espaço aberto e despovoado, marcado como sendo uma outra capitania (Porto Seguro), que, com o tempo, desapareceu. Segundo os historiadores, aquele território cortado pelo Cricaré era habitado pelos índios aimorés, tão ferozes e tão bravos que dificultavam e impediam a entrada dos colonizadores brancos.

Esse mesmo território, hoje, compreende municípios, cidades, vilas, lugarejos capixabas, que conservam muitas particularidades, vindas talvez do isolamento em que ficou por tão longo tempo e das características que transcorreram sua história e estabeleceram sua atual cartografia, coisas que se refletem em sua comida, manifestações culturais e no modo de ser e viver dos que são nele nascidos e dos que nele convivem.

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